1.º Treino
Agora é que vão ser elas #2
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades…
Existe um aspecto no futebol que sempre me intrigou e, muito provavelmente, ainda não compreendo, depois de ter dedicado algum do meu tempo a reflectir sobre isso. A prática de futebol esteve reservada durante muitos anos ao sexo masculino. Creio que a diferença de idades entre o primeiro clube masculino e o primeiro clube feminino, é de cerca de 100 anos. Actualmente, as equipas profissionais masculinas são esmagadoramente superiores em número, às femininas. Em Portugal, até à data, não existe NENHUMA.
Será normal pensarmos que em termos evolutivos, as equipas masculinas estão um século à frente das equipas femininas. E partindo do princípio que a evolução tende a estabilizar, haverá algum ponto no tempo em que as equipas femininas vão estar ao mesmo nível que as masculinas…Na Europa e na América já existem números consideráveis de equipas profissionais femininas. Assim sendo, não será de todo descabido pensar que daqui a bem pouco tempo, teremos equipas profissionais portuguesas, e a nível mundial existirem competições mistas. Devagar, devagarinho, Portugal acompanha a evolução dos tempos. A minha estimativa será que, aproximadamente daqui a meio século, será uma realidade o que vos escrevo. Ou não?
Por acaso estou curioso sobre o que diriam os clubes que actuam em Portugal sobre este assunto.
Só posso falar-vos da realidade que conheço. Existem clubes em que as atletas PAGAM para jogar. Não falo de escolinhas. Não falo de uma verba que lhes é exigida no início do campeonato. Falo no decorrer do campeonato, na compra de equipamentos, em algumas deslocações, o transporte e a alimentação. Já se viu atletas a fazerem uma vaquinha para juntarem dinheiro para pagar às forças policiais, cuja presença é obrigatória. E muito bem, não vá alguém assaltar os balneários e o roubo ser ainda maior…
Ora bem se PAGAM para jogar significa que não podem fazer disso profissão. Era muito mau. Pagar em vez de receber. Ora a palavra-chave deste palavreado todo é mesmo RECEBER. Neste momento, em Portugal, sem qualquer rigor científico (porque perdoem-me a ignorância (ou não) não faço ideia onde recolher estes dados) eu diria que cerca de 90 % das pessoas ligadas ao futebol feminino não tem qualquer tipo de remuneração ou compensação monetária. Acontece precisamente o oposto com as pessoas ligadas aos clubes masculinos, independentemente de serem profissionais ou amadores. Se tomarmos como referência o que vai acontecendo nos outros países, a tendência é que os clubes paguem aos seus colaboradores, sejam eles equipa técnica, atletas ou direcção. Mas será esse o caminho? E neste caso não falo só no futebol feminino. Eu até me arrepio se ver os montantes que por exemplo o Cristiano Ronaldo recebe. Até onde isto vai parar? Neste momento os patrocínios às equipas femininas são muito poucos. A única compensação que estes 90% das pessoas tem é a satisfação pessoal. A paixão por uma modalidade. A paixão por uma terra. Quer queiramos quer não, uma equipa de futebol é um conjunto de pessoas que representam uma dada região ou localidade. Representam o dinamismo, o esforço, o empenho, a entrega de uma dada localidade ou região, e se unem com um único propósito – jogar futebol. Os ditos grandes clubes foram transformados em empresas, empresas essas que, como em qualquer ramo de actividade, precisam FACTURAR para sobreviver. Estão a imaginar daqui a alguns anos, a Casa do Povo de Martim SAD a fazer também uma contratação milionária? E o espírito do verdadeiro clube para onde vai?
Será que os grandes visionários do futebol em Portugal têm alguma estratégia em relação a este assunto? Ou alguma opinião mesmo? Não faço ideia se os grandes clubes visionaram serem grandes empresas. Será mesmo esse o futuro que está reservado ao futebol feminino em Portugal? Quais são as linhas orientadoras? Eu remeto-me à minha humilde opinião mas gostaria sinceramente de ver alguma luz, pois questiono-me sobre o esforço que os clubes fazem neste momento, tendo em atenção ao que o futuro lhes reserva. As perspectivas para futebol feminino em Portugal, não são muito animadoras. Mas já o poeta dizia: “…sempre que Homem sonha, o mundo pula e avança, como uma bola colorida entre as mãos de uma criança…” Lá para o ano 2059 digam qualquer coisa…
Por favor corrijam-me se estiver errado…
P. Couto
Agora é que vão ser elas #1
Na corda bamba…
Aceitei colaborar com o site da Casa do Povo de Martim ao escrever uma crónica quinzenal sobre o pouco que sei sobre futebol feminino em Portugal, mas prometo dar o meu melhor. Já a minha 1ª obra tinha sido produzida e zás, morreu por ali, tive que mudar de assunto…
Não sei se tiveram oportunidade de ver a notícia que vem espelhada no site do Odivelas FC… O clube de Odivelas, que aparentemente respirava saúde, ACABOU…Pondo-me no lugar da Casa do Povo de Martim, creio que decididamente não era desta forma que o clube queria subir à 1ª divisão, mas se reuniram todas as condições para o fazer, na época que se avizinha, não vejo porque não aceitar. Por acaso já alguém reflectiu o que aconteceria se a Casa do Povo de Martim NÃO aceitasse o convite feito pela FPF? Mais uma badalada reestruturação da competição no Futebol Feminino em Portugal e não temos equipas suficientes, ou pelo menos equipas com condições para competir a este nível, ai meu Deus! Ou então aquelas que parecem ir de vento em poupa e perdem-se em mar alto…
De certo modo fico um pouco aliviado, apesar de cada vez mais desiludido. Pensava que só cá no norte o dirigentes desportivos, especialmente os que tem responsabilidade acrescida (Associações e Federação) se estavam a borrifar para nós – futebol feminino. Peço desculpa, talvez borrifar seja uma palavra demasiado forte, talvez distraídos com qualquer outro projecto. Pelos vistos, infelizmente, no nosso país é natural, pois em todas as áreas, andamos todos distraídos…Com o quê, não me perguntem! Uma equipa campeã Nacional da 2ª Divisão fecha portas assim do pé para a mão. Fico é curioso com um pormenor, nem todos os escalões do clube acabaram, o Futebol Feminino sim. A pergunta que me assalta é: os outros escalões do clube tem a mesma projecção do que uma equipa a competir a Nível Nacional? E logo na 1ª Divisão? Que objectivos tem os clubes em Portugal para deixarem cair projectos excelentes? Fazer um bom ou um mau trabalho, recebem o MESMO, o trabalho e as responsabilidades normalmente são bem MAIORES…
Todo santo dia somos bombardeados com mil e uma notícias e informações: nos jornais, nas revistas, na TV, na Internet…só de imaginar até cansa! Devo ser mesmo maluco, pois no meu pequeno mundo, só uma pequeníssima minoria parece estremecer e dar pulos de alegria quando se lê por exemplo: a equipa de Futebol Feminino, o 1º de Dezembro, está na Dinamarca a disputar a UEFA Champions League. E a abrir deu goleada! Oh meu Deus será que Portugal evoluiu assim tanto? Mas logo de seguida leio: a equipa do Odivelas ACABOU, e aí pronto, aí está bem, isso já é uma notícia normal se ler: clubes a desistir, clubes a fechar (e então aí a indiferença da sociedade é total!)
Experimentem perguntar ao vosso(a) vizinho(a) ou a um(a) colega de trabalho sobre o que acabei de escrever. O que acham que vai responder? – Ah já ouvir falar dumas raparigas que jogam futebol e parecem ter jeito e tal. Agora o clube que fechou, não faço ideia, de certeza que precisaram do dinheiro para outras coisas, só pode. – Mas o pobre do homem ou mulher, sabe pouco sobre o que diz. A realidade do futebol feminino português é bem dura. Quem está no meio sabe bem o que digo. É de louvar as equipas como por exemplo a Casa do Povo de Martim (estou a aproveitar e dar graxa à Sandra) que se mantém em actividade contínua à 11 anos. Mas alguém na Federação Portuguesa de Futebol ou alguém mais próximo dos clubes, as Associações de Futebol, já fizeram algum estudo a sério, sobre as necessidades dos clubes? Sobre as suas dificuldades? Que tipo de acompanhamento dão ao futebol feminino? Dá ideia que ninguém quer saber de nada…dá muito trabalho e chatices. – As atletas do Odivelas arranjam outro clube para jogar, senão o Director responsável pela situação que resolvesse, não é problema nosso – Mas parem e pensem! Elas vestiram e honraram uma camisola durante uma época inteira, melhor creio não ser possível terem feito, e agora que iam gozar do esforço de um ano inteiro dizem-lhes: o Clube acabou! Claro que dar um tiro ao próprio pé não é assim muito boa ideia, se pretendemos andar, muito menos correr… mas também o pessoal das Associações e Federação esquecem-se que o seu “posto” só existe porque existem clubes. Os clubes que querem mesmo, dão duro para continuarem, e estão sempre na corda bamba. No dia em que os clubes saturarem definitivamente, aí sim talvez se veja algum fumo, aí sim talvez sejam eles a ir para o “desemprego”…Agora meus senhores e senhoras promoção do futebol feminino em Portugal, digam-me onde, como e quando, porque definitivamente não devo a estar a ver bem…
Por favor, corrijam-me se estiver errado…
P. Couto















