O futebol é para mulheres?
Não há dúvida que o futebol feminino em Portugal tem ao longo dos últimos anos passado por mudanças diversas. O número de clubes tem diminuído e consequentemente o número de jogadoras, ou vice-versa. Tem sido feitas alterações ao longo dos anos mas não foi possível até ao momento encontrar um modelo compatível com a nossa realidade. No modelo actual espera-se que as Associações Distritais/Regionais tenham um papel mais activo e dinamizador, incentivando principalmente competição de Futebol 7, para desta forma formarem atletas para as equipas de futebol 11. Este é o objectivo actual. Tendo em conta a realidade que se apresenta, dou comigo a pensar: Será que o futebol pode mesmo ser praticado por mulheres? E se sim, que passos faltam para que o futebol evolua em Portugal?
Se analisarmos o percurso de um atleta do sexo masculino, este começa a treinar com cerca de 7 ou 8 anos. Após a passagem nas várias camadas já estruturadas no clube, com cerca de 18 anos, estão aptos a ingressar em qualquer equipa sénior. Por outro lado, uma atleta do sexo feminino, começa a treinar aos 13 anos, quando tem a sorte de encontrar uma equipa que a acolha. É inserida na equipa de formação, caso tenha, ou então treina juntamente com a equipa principal. Ora, para além da diferença no tempo de treino, entre o feminino e o masculino, existe a agravante de não haverem condições nos clubes para o desenvolvimento do futebol feminino, para a formação.
A essência do futebol como em qualquer desporto são os atletas. Quem pratica desporto é basicamente por motivos que se prendem com a competição, com a aptidão e com a influência de amigos ou familiares. Porque escolhem então o futebol e não qualquer outro desporto? Se perguntamos a maioria vai responder por ser a modalidade preferida e por ser a modalidade para a qual tem maiores capacidades. A motivação, mais até do que na vertente masculina é crucial e decisiva. Isto porque ao longo dos anos vejo muitos exemplos de jovens atletas promissoras, ou até mesmo de talentos, que abandonam o futebol. No feminino a realidade é que à medida que a atleta cresce, gera-se uma incompatibilidade de tal forma que, a partir de determinado momento, as exigências do treino/competição e o desempenho de outros papéis sociais tais como o estudo, a profissão e a família, são impossíveis de gerir. A agravar temos o facto de a grande maioria das atletas, não terem qualquer retorno social nem monetário. O que motiva então as resistentes? Todas dizem: o espírito e o trabalho em equipa. Para as mais ambiciosas será atingir um nível desportivo mais elevado, ultrapassar desafios e competir, fazer algo em que se é bom. Outras respondem fazer exercício, pertencer a um grupo e fazer novas amizades, divertimento. Para além da motivação das atletas existe outra coisa que é necessário que exista: condições para a pratica desportiva. Do que escrevi anteriormente acrescentem também o facto de muitas vezes a atleta ter que pagar do seu próprio bolso transporte, alimentação e equipamentos. Tem um campo no meio do monte com um balneário de dar a fugir ou então tem que percorrer não sei quantos quilómetros para ir para os treinos e jogos. Não tem um roupeiro que lhe trate do equipamento, e após cada treino ou jogo leva para casa o equipamento encharcado e cheio de lama. Isto ainda acontece! Terão estas atletas peso suficiente para mudarem o rumo das coisas? Será este o papel delas?
Para além das atletas, também os dirigentes dos clubes e treinadores do feminino, tem que ter motivação super e extra, isto porque todo o tempo investido no treino de uma atleta promissora que depois pelas razões apresentadas se revela uma frustração, é muito complicado. Ou então, temos as equipas adversárias a “roubarem” talentos porque o clube actual não apresenta as condições desejáveis. Não é possível estruturar equipas quando todos os anos se repetem trabalhos…Os que não se querem chatear desistem ou então, como referi, importam talentos de outros clubes, atletas já formadas. Poucos se querem dar ao trabalho…Depois normalmente não existem separação por camadas, é tudo ao molho. Podemos estar a falar para uma equipa com atletas com cerca de 13 anos de prática desportiva e outras 13 anos de idade. São realidades diferentes para ambas atletas…
Normalmente no futebol masculino existe o mercado de Dezembro, para compra e venda de atletas. No feminino o Dezembro é quando as forças começam a faltar. Quando o entusiasmo inicial começa a ser tomado pela sensação de fracasso, pela sensação de falta de apoio, pelo desgaste. O futebol não é uma “ciência exacta”, e como acontece dentro das 4 linhas, num jogo existem muitos factores previsíveis e imprevisíveis que condicionam o sucesso, e nos minam a vitória. Na gestão desportiva, na gestão do futebol é mais complicado ainda. Aumenta o número de variáveis. Soluções? Não sei…mas vou ficar para ver.
Por favor corrijam-me se estiver errado…
P. Couto
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